
Assistir a Flávio Bolsonaro em sabatina ou debate na televisão é como testemunhar um exercÃcio mnemônico de descaramento onde a realidade factual é tratada como um mero inconveniente. Munido daquela velha arrogância de quem herdou sobrenome mas passou longe de qualquer pudor republicano, o senador desfila um rosário de inverdades que desafiam a inteligência de qualquer telespectador desperto. É um festival de acrobacias retóricas em que a lógica é violentada ao vivo e a cores, transformando o estúdio de televisão numa extensão descarada de seu próprio gabinete de factoides.
​As piruetas argumentativas sobre temas cruciais — como o 8 de Janeiro, as maquinações escusas e as próprias responsabilidades polÃticas — revelam um candidato incapaz de sustentar uma única frase sem recorrer ao refúgio cômodo da caradura. Afirmar absurdos com a convicção de quem cultua a pós-verdade tornou-se a marca registrada de um clã que confunde debate democrático com palanque de desinformação. Cada pergunta incômoda é recebida não com respostas altivas, mas com a velha cartilha do “acuse os outros do que você faz”, numa tentativa patética de reescrever fatos amplamente documentados pelas investigações.​
O repertório das falsidades ventiladas na tela grande expõe a enorme distância entre o delÃrio narrado pelo clã e o estrago real deixado por sua biografia. É espantoso o desprendimento com que se inventam versões para atenuar o golpismo, maquiar desvios ou blindar aliados indefensáveis. Trata-se de uma encenação calculada para adestrar a base mais radicalizada, onde o compromisso com o óbvio cede espaço à conveniência de um enredo fantasioso que só sobrevive à base de muita cara de pau e repetição exaustiva.
​No fundo, o desempenho de Flávio nos microfones da emissora reafirma a tese de que a mentira, para essa linhagem polÃtica, não é um acidente de percurso, mas o próprio método de sobrevivência. Quando a calvÃcie da verdade esbarra na peruca reluzente das fake news, o que se vê é um desfile de evasivas que insulta a memória do paÃs. Em vez de estadista sabatinado, o que cruza a tela é o retrato acabado da petulância blindada pela certeza da impunidade, tropeçando nas próprias contradições sob o olhar perplexo de quem ainda preza pelo mÃnimo de decência pública.
