Irmão foragido, defendendo anistia e prometendo prender mais gente

Entre um pedido e outro de anistia para os patriotas que confundiram um golpe de Estado com excursão escolar, o defensor da moral e dos bons costumes encontrou-se com Gustavo Villatoro, ilustre ministro da Justiça de El Salvador. É bem verdade que o governo de Nayib Bukele carrega aquela leve marquinha de bagagem por acusações de ligações com gangues e violações sistemáticas de direitos humanos, mas quem se importa com pequenos detalhes burocráticos quando há tanta eficiência punitiva em jogo?​

Animado com o intercâmbio de ideias, o candidato do PL saiu do encontro com uma diagnóstico brilhante e altamente inovador sobre a realidade brasileira: o problema do país é que falta gente atrás das grades. Afinal, com a delicadeza de quem entende profundamente das dores da sociedade, Flávio constatou que nosso maior erro histórico foi investir em complexos de reabilitação e cidadania, esquecendo-se do potencial turístico e imobiliário das celas superlotadas.​

Para solucionar essa grave crise de falta de ferro e concreto, o plano salvador — sem trocadilhos com o país de origem — é gerar mais de 500 mil novas vagas em presídios. Nada como um belo arquipélago de prisões de segurança máxima para aquecer o coração do eleitorado que sonha com um futuro brilhante e hermeticamente fechado. É um verdadeiro plano de governo de excelência, idealizado por quem compreende que a melhor política de assistência social é garantir que todo cidadão tenha o seu próprio beliche de alcatras reservado desde cedo.

​Naturalmente, em meio a tanto planejamento penitenciário de ponta, a educação acabou sofrendo um pequeno e irrelevante esquecimento. Apostar na construção de escolas, contratação de professores ou em qualquer tipo de prevenção intelectual seria um desperdício imperdoável de tempo, afinal de contas, para que gastar com giz e lousa se o destino natural de meio milhão de brasileiros já pode ser planejado direto na prancheta da penitenciária? Menos cadernos e mais grades parecem ser o lema da nova era pedagógica.​

Resta agora saber se os futuros moradores dessas 500 mil vagas receberão apostilas de boas-vindas autografadas pelos defensores de golpistas ou se o plano de segurança pública do candidato vai direto ao ponto, economizando no abecedário. Uma coisa é certa: com tanta dedicação ao encarceramento em massa, o Brasil finalmente caminha a passos largos para virar uma enorme prisão sem muros — ou com muitos deles, dependendo apenas do capricho do ministro salvadorenho.

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